Design Thinking: Diferença entre Teoria e Prática

Fonte: foto por  Jo Szczepanska  em  Unsplash

Fonte: foto por Jo Szczepanska em Unsplash

 

Se você perguntar a 10 designers sobre o que é design thinking, você vai receber 11 respostas distintas. Não que existam respostas erradas ou certas, mas cada um tem seu conceito e sua experiência sobre a abordagem. Para essa discussão, usaremos a definição de Steve Jobs sobre design thinking: "é sobre criar soluções que funcionam".

Nós da Mastery tentamos seguir as 5 etapas, imersão, definição, ideação, prototipação e testes. Porém, algumas vezes - lê-se muitas - um cliente bate em nossas portas com um escopo pronto, a ideia já validada com interessados e querendo um produto, seu protótipo no caso, para amanhã. Por isso o tentar de antes.

A abordagem do design thinking é um processo cauteloso e paciente. Uma maratona, não uma corrida de velocidade. Demanda tempo, precisa de atenção e carinho e se feito de forma apressada pode invalidar toda a abordagem. Muitos dizem que é uma mentalidade, um mindset. Você não faz o design thinking, você age conforme a abordagem sugere.

Mas como dito, nem sempre o cliente provém de todo esse tempo para resolver seu problema, seja com lançamento de um produto ou outra solução provinda do design. Então como aplicar o design thinking sem obedecer o que dita a literatura?

 

As 5 Etapas do Design Thinking

Primeiro, vamos explicar as 5 etapas.

Como exemplo, usaremos uma empresa de comida saudável para adolescentes.

  • Imersão: É a fase da empatia. É a fase de observar, prestar atenção, escutar as pessoas e suas dores. Elas comem comida saudável? Sim, não, por quê? O que as impedem de comer? O que as motivam a comer? Essa etapa difere de acordo com o segmento que você está atuando, mas a função é a mesma: mapear as dores dos usuários e o que elas interferem na vida da pessoa. Nessa fase também podemos criar personas que são hipóteses de alto nível de quem é nosso público-alvo potencial.

  • Definição: Você saiu em campo ou conversou no chat da Uol e identificou várias dores. Agora seu dever é analisá-las e definir uma declaração de problema para projetar uma solução. A empresa te contratou para aumentar as vendas de comida saudável para seu público jovem, a meta da empresa é "como aumentar as vendas de comida saudável para adolescentes em 5%". Enquanto a meta é clara, não é uma definição boa de problema. Uma alternativa poderia ser, "adolescentes devem comer comidas saudáveis para terem uma saúde forte e próspera". Fica mais fácil idear uma solução e ao mesmo tempo atingir a meta da empresa.

  • Ideação: A hora de criar. Existem inúmeras ferramentas de ideação, nós geralmente usamos o brainstorm. Designers e uma equipe multidisciplinar se trancam numa sala pelo resto do dia e quem não dá uma ideia leva chibatada. Brincadeira, mas o processo é esse: juntar equipes multidisciplinares e cada um com sua perspectiva diferenciada dá uma ideia para a solução. Murilo Gun diz que "duas más ideais juntas formam uma boa ideia e duas boas ideias juntas formam ótimas ideias". É importante deixar a imaginação fluir e não ficar criticando durante a fase de ideação. Após terem ideias - geralmente em post-its -, pode usar outra técnicas para convergir as ideias em uma que apresente melhor a solução. Ferramentas como: Brainstorm, Brainwrite, Worst Possible Idea ou SCAMPER.

  • Prototipação: Declarou o problema e teve uma ideia mirabolante? Hora de prototipar. Protótipos são fases preliminares do seu produto, um MVP. Você pode ler mais sobre MVP no nosso artigo "Como lançar um produto digital em pouco tempo". É a versão mais simples do seu produto, com sua funcionalidade básica e que possa ser lançada com uma quantidade mínima de esforço e tempo. Mas para quê investir em um protótipo?

Exemplo do que  não é  um MVP e do que  é um .  Fonte: https://usemobile.com.br/custo-desenvolvimento-app-mvp/

Exemplo do que não é um MVP e do que é um.

Fonte: https://usemobile.com.br/custo-desenvolvimento-app-mvp/

PS: Eu sei o que você deve estar pensando, “mas o youtuber X disse que isso não é MVP! Que o skate não é MVP de um carro”. Isso depende da solução que você vai estar resolvendo para o seu usuário. Se o objetivo primário é ir de A até B sem ser a pé, o skate representa uma solução preliminar. Aos poucos você adiciona segurança, conforto, praticidade e todas as outras funcionalidades que vão diferenciar sua solução para o problema "locomover sem ser a pé”.

  • este: Para testar. A fase ideação é responsável por criar hipóteses de soluções, mas não podemos assumir que vão dar certo, investir nossa poupança e lançar no mercado. Por isso criamos protótipos de baixo custo e testamos com usuários, de preferência com nossas personas. Afinal, estamos projetando para eles. É importante nessa fase estar totalmente desapegado do seu produto e observar atentamente aos testes. Se um usuário tiver dificuldades em usar seu protótipo, você explicar como funciona e ele entender, você corrompe o teste. Ou você vai explicar para os milhares de usuários que forem usar o seu produto? (Aliás, uma das metas do UX é eliminar os manuais.) O intuito é criar um produto autoexplicativo e que faça sua função: resolver problemas.

 

Fonte: foto por  Jo Szczepanska  em  Unsplash

Fonte: foto por Jo Szczepanska em Unsplash

A Teoria Contra a Prática

São várias etapas, já foi comprovada que a abordagem funciona, as maiores empresas do segmento utilizam as técnicas do design thinking, mas nem sempre o cenário é propício para seguir todas as etapas.

Como disse anteriormente, às vezes o cliente está em uma emergência. Seu concorrente lançou um produto novo e ele precisa acompanhar senão perde fatia de mercado. Identificaram um timing excelente para o lançamento de uma nova solução e se não abraçarem a oportunidade, alguém vai ou os usuários vão perder o interesse. Seu cliente precisa apresentar uma proposta nova de produto até semana que vem para os investidores caso contrário perderá o patrocínio, entre outros inúmeros motivos.

Por isso cada um aplica a abordagem da maneira que se adapta à sua realidade. Nós aqui temos experiências especialmente com clientes que já tem uma ideia, já validaram ela com os interessados (pelo menos é o que eles nos dizem) e nos contratam para tirar essa ideia do papel e projetá-la em um produto digital. Não quer dizer que não conseguimos usar a abordagem, ainda aplicamos suas técnicas mesmo pulando algumas fases. Mudamos de maratona para corrida de velocidade (sprints).

Vem funcionando da seguinte forma: o cliente diz seu problema, explica sua ideia e solução e nós montamos um escopo do produto. A partir dessa conversa preliminar, projetamos casos de usos e jornadas de usuários hipotéticas. Depois, compramos muitos post-its e preparamos diversas perguntas. No próximo momento, fazemos uma sessão colaborativa de design thinking. Nós nos sentamos com o cliente, desenvolvedores, usuários e outros interessados e vamos simulando a navegação do produto. Cada um escreve em seu post-it como eles imaginam que seria a jornada de um usuário ao fazer login na plataforma, ver uma lista e editar seu perfil, por exemplo. Após essa sessão, colhemos todos os dados coletados, os analisamos e criamos a partir de um senso comum o protótipo. É uma mistura entre técnicas de ideação implementadas na prototipação.

Pulamos várias fases e tem gente que não chama isso de design thinking, mas um design doing? Sim, obviamente. Mas funciona usando técnicas derivadas da abordagem? Funciona, e muito! A perspectiva de cada profissional de sua disciplina ajuda a direcionar melhor o esforço, mitigar erros em uma fase preliminar e descobrir como podemos entregar o maior valor ao usuário final em pouco tempo.

O foco deve ser sempre o usuário final. Não dê espaço para opiniões ou gostos pessoais, crie soluções e faça os testes! Fuja dos achismos. Priorize a solução de problemas.

Conhecemos o processo, mas como dissemos, nem sempre temos a capacidade de aplicar a abordagem de forma regrada. Você pode pular etapas, não validar a declaração do problema e a fase de ideias. Isso aumenta o risco de aderência do produto, mas nunca remova o usuário da equação. Reduza os riscos envolvendo ele na fase do protótipo com testes, avaliando seus feedbacks e iterando. Centralize esforços para o usuário e no que vai agregar mais valor a ele.